6 de junho de 2012

Frases de Efeito

Beth Michel

Oi gente voltei!

Neste meu recesso – a espera dos "novos olhos" (tive que trocar as lentes dos meus óculos) andei cogitando sobre muitas coisas: e entre elas duas ficaram me alfinetando os neurônios, que embora semelhantes, não são iguais: “Ditos populares” e “Frases de efeito”.

Vocês já repararam que sempre que nos acontece uma coisa desagradável, ou que nos sentimos ameaçados ou confusos, aparece uma “boa alma” e lasca alguma frase prontinha?

Outro dia, foi num comentário feito para um blogueiro amigo, dizia o desconhecido: “... quem avisa amigo é”. Mas o fulano não avisava literalmente nada, e se é tão amigo, porque é toda vez que a gente escuta este aforismo, existe sempre um tom de ameaça embutido nele? Ninguém nos diz:"- Esse é o melhor bairro da cidade, quem avisa amigo é!"

E quando aparece alguém falando grosso para cima de você, e vem um "amigo" e te dá um tapinha nas costas e diz: “Não esquenta: cão que ladra não morde...”. Como assim? Qualquer cão (que não seja banguela) morde se sentir ameaçado. É mole minimizar o perigo quando o ameaçado é o outro.

E para justificar alguma incompetência – nunca a própria; sempre aparece um arrogante e diz: ”sabe como é, em terra de cego quem tem um olho é rei”. Gente! Em qualquer terra, quem tem um olho é: CAOLHO! Pode até enxergar bem com o olho restante. Mas eu não abro mão de nenhum dos meus dois olhos por reino nenhum. Não vamos nivelar por baixo!

E isto sem falar naqueles cuja maior aspiração na vida é: “ser amigo do rei”. Acorda rapaziada! Num sistema absolutista - como o nosso local, as primeiras cabeças a serem guilhotinadas são exatamente as dos amigos do Rei, que lá estão justamente para assumirem as culpas e dar a cabeça ao cutelo... Se sua única prerrogativa de "poder" é baseada na amizade com seus superiores, você tá lascado, véio! Fefêdos e Zés da vida que o digam. Basta dar uma olhada na lista dos inelegíveis divulgadas pelo TCE.

Todas as vezes que alguém usa um dito popular, para tentar me explicar ou me convencer de alguma coisa, a única coisa que me vem à cabeça é que esta pessoa, na verdade, não tem nada a dizer, mas não quer deixar de dar as últimas palavras. É assim como se meu interlocutor fosse um fabulista colocando a “moral” na fábula alheia.

Por outro lado existem outras frases e palavras, mais complexas, que são avidamente colecionadas, por todos aqueles que querem aparentar uma cultura (sabedoria) que não tem. É mais ou menos assim: inserem-se algumas palavras “complicadas” de sentido um tanto obscuro, e de preferência em desuso, no meio de uma frase qualquer, e se culmina com uma frase tipo: “A bom entendedor, meia palavra basta”. Querem um exemplo? Bem vamos lá, uma frase que ouvi recentemente (juro que, desta vez, não foi de nenhum político):

“... meus caros, nós temos que levar em conta que na idiossincrasia das sociedades emergentes, não cabem mais ações protelatórias que venham a diluir os anseios comunitários, temos que partir do exemplo que nos foi dado pela Escola Peri patética, e só então ampliar os conceitos hermenêuticos que dela emanam... Não vou me alongar, pois creio que para bom entendedor, meia palavra basta” (sic)

Não foi de gozação, o papo e o assunto (Conselho de Cultura) era dos mais circunspectos!

Como assim: MEIA palavra? Que metade de qual palavra? Basta para o quê?

Pago uma garrafa de licor de Jenipapo do James para quem decifrar e me der o real SENTIDO do que o sujeito disse - e publico aqui na integra.

Já por escrito, a "grande sacada" dos que querem vestir o manto de “literatos” – mas tem preguiça demais para estudar o idioma pátrio, são os “neologismos”, as “figuras de linguagem”, e as – igualmente irritantes – “licenças poéticas”. Que acabam por se tornar desculpa para qualquer atropelo gramatical, ou para problemas com a semântica. Eu não sou professora de português, nem nada parecido, mas a meu ver a linguagem falada ou escrita tem a missão de comunicar. Se a comunicação não se faz entre o “emissor” e o “receptor”, a linguagem perde sua função.

Não – podem guardar suas linguinhas bífidas dentro das bocas; eu não sou contra os ditados populares, figuras de linguagem, e nem sequer contra as frases de efeito, se forem usadas com comedimento e de maneira adequada. Alguns ditados, ainda que incorporados ao nosso dia-a-dia, não fazem o menor sentido, e em algumas circunstâncias podem ser ofensivos e até desmerecer a inteligência de quem diz e de quem escuta. Por outro lado, uma frase de efeito, se bem colocada, pode evitar que uma discussão se transforme numa disputa.

Permitam-me sugerir um exercício intelectual: façam uma lista destes ditos, e frases que permeiam nosso dia-a-dia, e que a gente acaba usando sem pensar. Depois se perguntem se eles realmente fazem sentido, ou se somos meros papagaios que repetimos qualquer coisa, só para ter algo a dizer...

E termino com um ditado modificado: Em boca fechada não entra mosca - e dela também não saem asneiras.




Beth Michel 
Escritora, Artista Plástica e Crítica Contemporânea
(Minha personal Miss Marple)